Viola na sacola
sábado, 17 de março de 2012
Aprendendo a deixar para trás
Já deveríamos ter aprendido a lição. Ao observar minha esposa arrumando as malas para nos mudarmos de país pela terceira vez nos últimos seis anos, percebo como acumulamos coisas inúteis.
Vivemos num apartamento minúsculo em Buenos Aires, onde quase não há armários e, mesmo assim, estamos cercados de inutilidades: roupas que compramos e que nunca usamos, sapatos, chapéus, filmes que nunca assistimos, livros que nunca lemos e uma quantidade assustadora de papel, folders de restaurantes, mapas de cidades, documentos, contas, recibos...
O meu sonho era o de poder carrregar tudo que tenho numa mochila, mas logo descobrimos que isto é quase impossível.
Precisamos aprender a deixar para trás, a abrir mão de tanta coisa, mas há o imprescindível, que não cabe numa única mala. Só o meu equipamento fotográfico, as minhas ferramentas de trabalho, pesa quase dez quilos. Não posso deixá-lo para trás, é o meu ganha-pão, assim como outros não podem deixar para trás seus escritórios, suas salas de aula, seus automóveis ou aquilo fundamental para seu sustento.
No entanto, descobrimos que muito que consideramos essencial não o é. Roupas, livros, meu piano, eletrodomésticos, e também a companhia de certas pessoas, daquelas que nos põem para baixo, invejosas e negativas, pudemos deixar para trás sem remosos.
Pois existem coisas inúteis em nossas vidas, e também coisas e pessoas que nos prendem e nos atrasam. Às vezes, até as consideramos como essenciais, mas assim que nos livramos delas, era como se o peso do mundo houvesse sido retirado de nossas costas.
Alguns precisam deixar para trás seu país para aprender a amá-lo, enquanto outros constatam que lar pode ser qualquer lugar, desde que o de mais valioso esteja por perto. E os verdadeiros amigos continuarão sendo seus amigos apesar da distância, inclusive é nestas horas que você descobre mais claramente quem são as amizade reais e quais são aqueles que só se aproximam por interesse.
Já deveríamos ter aprendido a deixar para trás e, quando nos vemos diante de tanto lixo, tanto para jogar fora, juramos para nós mesmos que, em nossa próxima casa, faremos diferentes. No entanto, as pessoas acumulam por natureza, talvez um instinto pré-histórico de escassez, de guardar porque talvez necessitemos um dia para alguma emergência que nunca ocorrerá.
Deixar para trás é essencial, pertence à nossa existência. Deixamos nossa escola, nossos amigos de infância, nossos primeiros relacionamentos, nossos pais, a universidade, casas e carros, roupas e objetos, cidades e países, e depois nossos filhos se vão, nossas recordações se desvanecem, por fim, ao término de nossas vidas, deixamos tudo para trás, dinheiro, bens e todo o resto, o essencial ou o supérfluo.
Viver é abandonar.
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terça-feira, 9 de agosto de 2011
Rumo a Taiwan

Amanhã, embarco rumo à viagem mais inesperada dos últimos tempos.
No começo deste ano, o governo de Taiwan iniciou um processo seletivo para custear a viagem de 250 jovens do mundo inteiro, para acompanharem as celebrações de 100 anos de independência do país.
A seleção assemelhava-se a uma entrevista de emprego e eu quase desanimei. Pediam referências, currículo, proeficiência em inglês ou em chinês, que enviássemos um vídeo explicando porque deveríamos ser escolhidos e também deveríamos ser capazes de usar a internet para compartilhar com o mundo as nossas experiências em Taiwan.
Como bom brasileiro, eu e Denise deixamos tudo para a última hora e acabamos não conseguindo fazer o vídeo, mas enviamos apenas as referências do Viagens para Mãos de Vaca (www.maosdevaca.com), o nosso blog que é lido por meio milhão de leitores todos os anos. Pensávamos que isto seria o suficiente para sermos selecionados, mas, depois, acabando nos esquecendo disto, pois as probabilidades eram mínimas.
Então, no final de maio, assim que desembarcamos em Roma Termini, a confusa estação de trens da capital italiana, aproveitamos o atraso nos trens para irmos a um cibercafé. Foi quando descobri que eu havia sido um dos selecionados, que iria para Taiwan com tudo pago e me hospedaria na casa de chineses. Infelizmente, a Denise não havia tido a mesma sorte, já que apenas eu e mais três brasileiros representaríamos o nosso país neste evento.
O tempo voou até agora. Obter o visto de Taiwan em Buenos Aires foi uma complicação só, pois eles exigiam alguns documentos que eu só poderia requisitar no Brasil, e eu não teria tempo para ir até lá. Mas tudo acabou dando certo no final. Depois foi a tentativa de entrar em contato com a família que me hospedará em Taiwan, que só ocorreu alguns dias atrás.
Aparentemente, eles tem muitos planos para o visitante do outro lado do mundo, disseram-me que seus amigos estão muito ansiosos para conhecerem o estrangeiro. Já conheço a sensação de parecer um ET em terras estrangeiras, mas talvez Taiwan seja o caso mais extremo, ainda vou descobrir.
Só vou conhecer os outros 249 convidados, de todos os cantos do planeta, nos últimos dias do evento, quando teremos um banquete com o presidente do país. Até lá, viverei no mundo dos taiwaneses, entre taiwaneses, tentando me tornar como um deles.
Este é o tipo de experiência que raras vezes se tem como turista. O mundo real dos moradores é quase sempre inacessível ao estrangeiro, é interdito. Vagamos pelas áreas artificiais daquele outro mundo, bairros ou ruas preparadas para captarem o capital dos forasteiros, cheias de luzes e lojas caras onde os moradores, muitas vezes, jamais teriam condições para comprarem qualquer coisa.
O mundo real destes países está para mais além, precisa ser descoberto, necessita ser desbravado. No entanto, neste caso, eu serei lançado em meio a este outro mundo, para o bem ou para o mal.
Resta-nos descobrir o que me aguarda. Amanhã, inicia uma viagem de 36 horas de Buenos Aires até Taiwan, cruzando meio planeta e com escalas em dois países em dois continentes no caminho.
Talvez descubramos uma cultura completamente diferente da nossa, mas talvez descubramos também pessoas tão parecidas, com anseios e medos iguais aos nossos, e que nos revele a simplicidade do ser humano.
Que a jornada comece...
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